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domingo, 21 de novembro de 2010



— Eu quero me matar.
(silêncio)
— Eu estou apaixonada.
— Você quer se matar porque está apaixonada?
— Acho que sim.
— Mas você só tem dezesseis anos.
— E o que que tem? Não sei quem foi que disse que a gente devia se
matar na adolescência, quando as coisas ainda são bonitas.
— As coisas não são bonitas?
— Não. Odeio cada pedra desta cidade. Cada porta. Cada casa. Cada
cara que passa por mim na rua. Odeio, odeio. Mas não se mate.
(silencio)
— Por favor.
— Por favor o quê?
— Não se mate.
— Ah, esquece. O sol está indo embora. Só falta um terço dele.
— Ninguém se mata por amor.
— Agora só tem uma lasquinha dele, bem vermelha.
— Olha, uma vez eu li um cara, um escritor chamado Cesare Pavese,
que dizia assim: “Ninguém se suicida por amor. Suicida-se porque o amor, não importa
qual seja, nos revela na nossa nudez, na nossa miséria, no nosso estado desarmado, no nosso
nada.”

— E o que aconteceu com ele, esse tal Cesare?
— Se matou.
(silêncio).



(Caio Fernando Abreu)

5 comentários:

  1. Perfeito, os textos do Caio são bons demais.

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  2. Olá, Carolina...
    Navegando pela internet, achei este seu espaço...
    Olha, muito bom o seu blog, suas idéias, sensibilidade e seu bom gosto...
    Parabéns pelo trabalho! Estou te seguindo.
    Saudações,
    EDU (http://edurjedu.blogspot.com)

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  3. Blog do Caio, é?! Lindo né =)
    Estou seguindo. Será bem vinda no meu também.

    um beijo

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  4. Oi flor, Gostei muito do teu cantinho. Parabens.
    Já to te seguindo rs. Beijos

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